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8 Anos de história movida a biogás

8 Anos de história movida a biogás

Em entrevista exclusiva, conversamos com Rafael González, Diretor Presidente do CIBiogás e Felipe Marques, Diretor de Desenvolvimento Tecnológico do CIBiogás para falar sobre como a cadeia do biogás vem se desenvolvendo no Brasil e como a inovação vem fazendo parte da trajetória da instituição, que em 2021, completa 8 anos.

Panorama do Biogás no Brasil

Recentemente foi lançada a Nota Técnica que referencia o Panorama do Biogás no Brasil no ano de 2020 e é possível perceber que, mesmo que ainda tímido, o setor de biogás vem crescendo de forma significativa no país.

O fortalecimento da cadeia de fornecedores nacionais tem sido um dos principais aspectos para o crescimento do setor de biogás. “O domínio tecnológico aumentou bastante nos últimos anos, entregando aos interessados em produzir biogás, plantas com propostas mais robustas.” destaca Felipe Marques.

O desenvolvimento de modelos de negócios para a realidade nacional também permitiu que mais empreendedores do biogás tenham encontrado resultados relevantes em suas plantas, com a possibilidade de atração de investimentos, acrescenta o Diretor de Desenvolvimento Tecnológico do CIBiogás.

Além disso, o debate técnico entre as lideranças das diversas esferas governamentais tem promovido maior destaque ao biogás, no que se refere ao desenvolvimento de uma legislação mais segura e possíveis linhas de créditos, com perspectivas positivas focadas na transição energética nacional.

“A modernização da matriz energética é uma realidade que o país está enfrentando. Com isso, as energias renováveis e, por sua vez, o biogás, ganham relevância política e governamental. Essa movimentação aquece o interesse de investidores, sim, mas também acaba trazendo em pauta o tratamento de resíduos como uma solução polivalente para demanda energética, ambiental, econômica e social.” Comenta Rafael González.

Biogás: uma fonte energética circular e resiliente

A transformação da biomassa oriunda dos dejetos animais, resíduos agroindustriais e resíduos sólidos urbanos oportuniza, não apenas a geração da energia térmica ou elétrica a partir do biogás produzido, mas também, a obtenção de produtos secundários de alto valor agregado como o biometano e o biofertilizante.

A versatilidade do biogás amplia as oportunidades de geração de renda e vai de encontro às políticas de mitigação das mudanças climáticas. É possível perceber uma característica singular da cadeia do biogás que traz, na prática, o conceito de economia circular e desenvolvimento sustentável. Além disso, incentiva a descentralização na geração, não apenas de energia, mas também na geração de recursos, favorecendo o desenvolvimento econômico local.

O Brasil tem clima favorável, dimensões continentais e uma atuação econômica nacional e internacional que resulta numa alta concentração de produtos que devem ser convertidos em ativos energéticos, comenta Rafael González. Por esta e outras razões, o Brasil pode ser o grande protagonista mundial na cadeia do biogás, reunindo as melhores características para se estabelecer como referência em sustentabilidade energética.

Felipe Marques destaca que em pouco tempo, o agronegócio brasileiro poderá se apresentar ao mundo como o mais verde do planeta. “Um exemplo para ilustrar são os caminhões da logística de transporte do interior para os portos rodando com biometano e gás natural. Outro exemplo, são os resíduos urbanos orgânicos sendo utilizados para produzir biometano para o transporte público. Dois exemplos que conectam com a circularidade e regionalização econômica.” acrescenta Felipe.

Dados apresentados pela ABiogás apontam que o biometano pode suprir até 70% da demanda de diesel. O BiogásMap, ferramenta digital desenvolvida pelo CIBiogás, indica ainda um crescimento no número de plantas de biometano, de pequeno a grande porte, em torno de 6x mais no ano de 2020 se comparado ao ano de 2019.

O presidente do CIBiogás, Rafael González, ressalta que o Brasil tem potencial para produzir 82,58 bilhões de metros cúbicos ao ano, considerando os setores sucroenergético, saneamento, proteína animal e produção agrícola (ABiogás, 2021). Deste potencial, no último levantamento do CIBiogás, aproveitamos apenas 4% (1,83 Nm3/ano).

Se compararmos o cenário brasileiro, ao mercado internacional como o da Alemanha, por exemplo, é possível perceber que mesmo em condições não tão favoráveis como as do Brasil, a Alemanha vem liderando o mercado de biogás. “O que falta é ter leis e incentivos fiscais, maior divulgação de ações e projetos de sucesso, desenvolvimento de políticas públicas e agenda política estratégica para dar atenção à fonte no Brasil.”, destaca o presidente do CIBiogás.

8 Anos de muita energia movida a biogás e inovação

O CIBiogás e seus associados já vem contribuindo há 8 anos pelo menos para a democratização do biogás, entregando projetos de Pesquisa & Desenvolvimento, estruturando novas modelagens de negócios e arranjos produtivos, além de informação de alto nível e capacitação de mão de obra especializada. São diversas linhas de atuação e sabemos que podemos produzir biogás em todos os estados brasileiros, mas ainda queremos mais, queremos que o Brasil todo tenha acesso aos benefícios do desenvolvimento deste energético em nossa matriz.

Inovação é nosso café da manhã no CIBiogás. Me orgulha o time inquieto que temos, buscando sempre formas de produzir mais biogás, aumentar performance, modelar novos negócios, aproximar fornecedores e desenvolver novas tecnologias. Temos um ambiente crítico, cooperativo e colaborativo no nosso centro, focado no pensamento criativo e inovador.” destaca Felipe Marques.

Rafael González acrescenta que a inovação é a essência da instituição. “A partir do momento que desenvolvemos uma solução, ela é entregue à cadeia de biogás e a nossa equipe busca trabalhar para melhorar o que foi entregue e/ou encontrar outras questões para solucionar. Essa é a nossa missão. Partindo deste princípio, entendemos que “pensar fora da caixa” é essencial quando temos que lidar com recursos, desenvolvimento de conhecimento e pesquisas… e esses são os nossos grandes desafios”.

Atualmente, o CIBiogás domina o conhecimento técnico das tecnologias existentes no mercado interno e de seus custos, e busca sempre aprimorar seu know-how por melhores performances e técnicas de aproveitamento total da biomassa, inclusive buscando parcerias nacionais e internacionais para aperfeiçoamento tecnológico e econômico.

Nos 8 anos do CIBiogás são os desafios que motivam o progresso. O presidente da instituição cita com orgulho a estruturação do Laboratório de Biogás, que neste ano completa uma década de atuação dedicada ao ensaio de biomassa, e que hoje analisa diariamente como fazer com que plantas de biogás performem cada vez melhor. “Recebemos amostras do mundo inteiro, e seguramente temos o maior banco de dados relacionados à produção e potencial de biogás do Brasil. Além de gerar esses dados, administrá-los de forma adequada, respeitando as características de cada região e cliente, e adaptando as soluções também é um grande desafio.” complementa.

As novidades do CIBiogás ainda para este ano são: linhas de crédito/financiamento destinadas ao produtor rural, grandes parcerias com municípios para utilização do biogás e biometano de aterros para produção energética, arranjos coletivos robustos para tornar cidades mais sustentáveis, com o desenvolvimento da bioeconomia regional e também a utilização do biometano em veículos pesados.

Para saber mais acesse: https://cibiogas.org/

Sobre Rafael Hernando Aguiar Gonzalez:

Engenheiro Ambiental e mestrando em Engenharia e Tecnologia Ambiental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Há mais de 10 anos atua na captação e gestão de projetos na área de energias renováveis. Participou do desenvolvimento do Plano de Negócios e estruturação do Centro Internacional de Energias Renováveis, CIBiogás, em 2012. Em 2016 assumiu a Diretoria de Desenvolvimento Tecnológico e em 2020 assumiu a Diretoria Presidência do CIBiogás, conduzindo projetos estratégicos e consolidação empresarial. Atualmente é conselheiro da Associação Brasileira de Biogás (ABiogás) e do Conselho Diretivo do Projeto GEF/Brasil – Biogás (Aplicações do Biogás na Agroindústria Brasileira).

Sobre Felipe Marques:

Felipe Marques atua há mais de 10 anos no setor de biogás, com maior ênfase no desenvolvimento de arranjos tecnológicos e de negócios em energia e sustentabilidade no mercado brasileiro. No agronegócio participou de projetos com modelos inovadores, como condomínios de agroenergia, mobilidade a biometano, geração distribuída e microgrids. Esteve à frente da empresa Bioplan Biogás por três anos e atualmente é diretor de Desenvolvimento Tecnológico do Centro Internacional de Energias Renováveis – o CIBiogás. Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Agronegócio pela UNIOESTE, cuja linha de pesquisa se objetiva no estudo das cadeias produtivas do biogás. Felipe é Engenheiro Ambiental, mestre em Geografia, Meio Ambiente e Desenvolvimento e possui MBA em Gerenciamento de Projetos.

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O contexto do Nexo Água-Energia-Alimentos no cenário do biogás e biometano

O contexto do Nexo Água-Energia-Alimentos no cenário do biogás e biometano

O aumento populacional previsto para os próximos anos tem elevado a preocupação dos países com relação ao meio ambiente e formas mais sustentáveis de ampliar as cidades. O relatório “Perspectivas da Urbanização Mundial” (World Urbanization Prospects), produzido pela Divisão das Nações Unidas para a População do Departamento dos Assuntos Econômicos e Sociais, da ONU (2019), aponta que a população global deverá chegar a 8,5 bilhões em 2030, 9,7 bilhões em 2050 e 10,9 bilhões em 2100, representando grandes desafios para a gestão das cidades.

De acordo com o relatório, há 100 anos, apenas 10% da população mundial vivia nas cidades. Hoje este índice é de 50% e tende a aumentar nos próximos anos, chegando a 75% até 2050. Esse cenário indica que três quartos da população mundial passarão a ocupar áreas que hoje são cobertas por vegetação, devastando matas para criar espaços diminutos de sobrevivência, possivelmente, utilizando recursos naturais sem restrição e poluindo o ar, o solo e as águas. Isso acarreta significativo crescimento na demanda por novas infraestruturas, elevação no consumo de energia e de água, além de outros problemas relacionados aos aspectos sociais e culturais, implicando em desafios ao poder público e privado, gestores ambientais e cidadãos. E neste contexto, o conceito de nexo alimento-água-energia se torna cada vez mais importante à medida que a natureza complexa e inter-relacionada desses recursos globais é compreendida e a necessidade de uma gestão mais coordenada desses ativos em todos os setores e escalas é cada vez mais evidente.

A água é necessária para a produção de quase todas as formas de energia. Para combustíveis primários, a água é utilizada na extração de recursos, irrigação de matérias primas para biocombustíveis, refino e processamento de combustíveis e transporte. Na geração de energia em usinas térmicas, por exemplo, a água fornece o resfriamento e outras necessidades relacionadas com o processo. No caso das hidroelétricas, os equipamentos aproveitam o movimento das águas para a produção de eletricidade.

Já a produção de alimentos está diretamente ligada ao consumo de água e energia e, se não houver uma boa gestão dos resíduos, acaba por poluir os corpos hídricos. Por isso a importância da abordagem desse nexo, identificando as possíveis sinergias entre esses 3 elementos.

A relação entre o NEXO e a Cadeia de Biogás

O biogás representa uma fonte de energia renovável e sustentável, sendo obtido a partir do tratamento de resíduos vegetais, animais, humanos e industriais, amplamente disponíveis em uma ou mais dessas formas em qualquer cidade. É composto principalmente por metano (CH4), que é 21 vezes mais poluente do que o dióxido de carbono (CO2) quando lançado na atmosfera. As emissões de CO2, que são liberadas na atmosfera durante a combustão do biogás e biometano, são iguais à quantidade de dióxido de carbono que é emitida durante a decomposição natural da matéria orgânica original. Com isso, o perfil negativo da intensidade do carbono aparece à medida que a purificação do biogás em biometano reduz o teor de CO2 e não será lançado na atmosfera, demonstrando seu elevado grau de descarbonização.

Além disso, os sistemas de geração de biogás têm potencial para transformar passivos ambientais em ativos econômicos, por meio da conversão em energia elétrica, térmica e para uso veicular, além de proporcionar maior segurança energética. Quando purificado, o biogás pode ser convertido em biometano, que pode auxiliar na diversificação da matriz energética em substituição aos combustíveis fósseis, principalmente para mobilidade urbana mais sustentável.

A transição para combustíveis de baixo carbono nos sistemas de transporte urbano parece ser inevitável. A dependência histórica de combustíveis fósseis como fonte primária de energia para a urbanização pós-industrial está sendo fortemente questionada, dada a disponibilidade cada vez menor de petróleo e as consequências sociais, econômicas e principalmente ambientais de seu uso generalizado.

Em 2019, as reservas de petróleo conhecidas no mundo atingiram 1,7 trilhão de barris, permanecendo no mesmo nível de 2018, com uma pequena queda de 0,1% (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – ANP, 2020). O petróleo, embora finito, nunca se esgota inteiramente, pois sempre haverá uma quantidade que, por razões puramente econômicas, não será extraída. O conceito de “esgotamento” da reserva de petróleo se aplicaria à disponibilidade de petróleo a um preço viável em comparação com fontes alternativas de energia. Mesmo assim, considerando um consumo global em torno de 95 milhões de barris / dia (ANP, 2020), as reservas mundiais conhecidas/identificadas se esgotariam em cerca de 50 anos, demonstrando a necessidade de diversificação e substituição dessa fonte por fontes renováveis e mais sustentáveis.

As consequências ambientais diretas e indiretas da exploração e uso massivo de combustíveis fósseis tem sido um argumento cada vez mais importante na sociedade e a busca por fontes alternativas de energia com menor impacto tem levado diversos países a investirem recursos significativos, principalmente nas últimas três décadas. E nesse cenário o biogás e biometano se destacam, sendo uma fonte intrinsicamente relacionada ao nexo água-energia-alimentos e tendo diversos impactos positivos nas questões ambientais, econômicas, sociais e tecnológicas. Deve-se destacar os impactos positivos para o desenvolvimento social local, uma vez que o processo de produção de biogás e biometano constitui e sustenta uma cadeia produtiva relativamente complexa, exigindo mão de obra local especializada, apoio técnico e científico, e conscientização e empoderamento da população local relacionada aos processos.

Nesse contexto, o nexo água-energia-alimentos explora interfaces de vários setores e em várias escalas, levando em consideração as configurações locais, regionais e transfronteiriças e as compensações e sinergias criadas pelo uso competitivo de recursos e agendas políticas, exigindo coordenação intersetorial e transversal para a integração e gestão de recursos e governança ambiental.

Sobre Janaina Camile Pasqual Lofhagen:

Doutora em Gestão Urbana (PUCPR), com doutorado sanduíche na Universidade do Arizona (EUA). Pós Doutorado em Gestão Urbana na PUCPR e University of Central Florida (EUA). Mestre em Cadastro Técnico Multifinalitário e Gestão Territorial pela UFSC. Graduada em Relações Internacionais e em Administração de Empresas. Atuou como Supervisora de Negócios da Granja São Roque (primeira propriedade rural a gerar energia elétrica a partir do biogás dos dejetos de suínos, em SC). Foi consultora em Gestão Pedagógica da Fundação Parque Tecnológico Itaipu e do Centro Internacional de Energias Renováveis Biogás (CIBiogás), participando da estruturação e implantação de Cursos a Distância. Foi pesquisadora da Federação das Indústrias do Paraná (FIEP), atuando na análise de ambientes urbanos mais sustentáveis e fontes renováveis de energia. Foi consultora da UNIDO e atualmente é professora de Pós Graduação na PUCPR e UTFPR. Tem diversas parcerias nacionais e internacionais relacionadas a energias renováveis e smart cities, com foco na gestão urbana mais sustentável e mobilidade urbana sustentável.

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