Category: Transição Energética

Inovação e Economia Circular

Conexão da pesquisa científica e inovação tecnológica com os conceitos da economia circular

Mônica Tejo atual diretora do INSA – Instituto Nacional do Semiárido, Unidade de Pesquisa do MCTI é a especialista convidada do mês de agosto/2021 para a newsletter do NRGhub e vem compartilhar sua visão sobre a conexão da pesquisa científica e inovação tecnológica com os conceitos da economia circular.

Em meio a um turbilhão de informações que vivemos, novidades em nomes e terminologias, necessitamos envolver a sustentabilidade em cada ação realizada. Hoje em dia, fazer algo diferente do convencional é dito como inovar, e parece que virou moda dizer que é inovador.

Diante de tantos conceitos atuais, convido você a pensar em inovação como um processo que se inicia na resolução de um problema real, este problema pode existir em qualquer área, ou tema. A partir da identificação do problema, investimos tempo e conhecimento para pensar em resolvê-lo e assim, desenvolvemos a tecnologia em si, podendo ser protegida nesta etapa, gerando, por fim o valor, que pode ser social (inovação social) ou gerar nota fiscal (inovação tecnológica). Neste processo entra o conhecimento, a pesquisa, o desenvolvimento, que vão caminhando nunca escala de maturidade que vai de 1 a 9, chamada de TRL.

A pesquisa científica se conecta como sendo a base para geração da inovação e, se pensarmos um pouco, tudo é circular. E por falar em circular, um tema muito importante que devemos ter clareza sobre, é a economia circular (EC), que se caracteriza como uma economia restaurativa e regenerativa segundo a Ellen Macarthur Foundation (2015) e está baseada em 3 princípios que são os de “preservar e aprimorar o capital natural controlando estoques finitos e equilibrando os fluxos de recursos renováveis; otimizar o rendimento de recursos fazendo circular produtos, componentes e materiais no mais alto nível de utilidade o tempo todo, tanto no ciclo técnico quanto no biológico e estimular a efetividade do sistema revelando e excluindo as externalidades negativas desde o princípio”.

A Economia Circular (EC) pode ser vista como uma alternativa para redefinir a noção de crescimento, proporcionando benefícios para toda a sociedade. Assim, saímos do modelo de extrair, transformar e descartar e evoluímos para o circular, mas não somente neste contexto, mas também em elementos da pesquisa cientifica, onde o problema, citado lá nas etapas do processo de inovação, está relacionado a como manter a sustentabilidade do início ao fim.

Alinhado a este conceito, temos também a tendência para o alinhamento na gestão de projetos que apresentam indicadores e resultados ligados ao ambiental (Environmental), social (Social) e à governança (Governance), ESG, um movimento que vem repercutindo em todos os setores, com oportunidades de investimentos crescente nas mais diversas áreas.

Por outro lado, quando se realiza P&D, poucos pesquisadores estão familiarizados com a ideia de se pensar no modelo de negócio. Chega a ser uma afronta em algumas “castas” científicas. Assim, para atingir a inovação e avançar no TRL é preciso planejamento, visão estratégica e modelagem na pesquisa. Temos várias oportunidades diante de investimentos diversos disponíveis e cabe a nós, pesquisadores disruptivos, mostrar que dá certo.

A economia circular e o setor energético

A economia circular pode se relacionar com o setor energético por meio da diversificação da matriz energética no Brasil. Atualmente, as fontes de energias mais utilizadas no país ainda são de origem hidrelétrica e fontes fósseis, no entanto, há um grande potencial e movimento para utilização de energias limpas, como a energia fotovoltaica, eólica, biocombustíveis, biomassa e hidrogênio verde. Tais alternativas, podem ser fortemente influenciadas no contexto da economia circular. Além disso, a interação entre o setor produtivo, ICTs, IES e o poder público provoca a colaboração do ecossistema de energia, associando o desenvolvimento econômico ao uso consciente e responsável dos recursos naturais.

Diante de toda tendência e oportunidades relacionadas a EC e ESG como citado, em breve o INSA sediará o Centro de Tecnologia em Energias Renováveis do Semiárido promovendo ações relacionadas a PD&I e estimulando a utilização das práticas baseadas na economia circular, com oportunidades que incentive o desenvolvimento de Tecnologias Aplicadas às energias renováveis no Semiárido brasileiro.

Sobre Monica Tejo:

Atual diretora do INSA – Instituto Nacional do Semiárido, Unidade de Pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) com sede em Campina Grande-PB, com atuação em todo o Semiárido brasileiro.  É Professora Associada no Curso de Graduação em Engenharia de Alimentos da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG/Pombal) e Doutora em Engenharia de Processos. Em 2017, quando coordenava o Projeto “Transformando Vidas na Terra de Celso Furtado”, do Programa de Estudos e Ações para o Semiárido (PEASA/UFCG) recebeu o Prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional na categoria inovação e sustentabilidade.

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A Bioeconomia e o Brasil: Oportunidades e Desafios

A Bioeconomia e o Brasil: Oportunidades e Desafios

Associação Brasileira de Bioinivação concede entrevista exclusiva ao NRGHub e fala sobre políticas públicas, inovação e muito mais. 

Em entrevista exclusiva ao NRGHub, Thiago Falda, atual presidente da ABBI compartilha sua visão sobre o cenário atual da bioeconomia brasileira, aponta oportunidades e desafios e destaca como o Brasil pode se tornar uma potência global neste assunto.

A bioeconomia tem sido considerada um pilar estratégico para o desenvolvimento econômico em diversos países (especialmente, os Europeus), podendo impulsioanr a economia na ordem dos bilhões. Para Thiago Falda, presidente da ABBI, o Brasil possui diferenciais importantes que o permitem se tornar líder global da bioeconomia. “Temos a maior produção de biomassa e ao menor custo do planeta, a maior biodiversidade do mundo, uma agricultura sustentável e altamente eficiente, além de recursos humanos altamente capacitados e experiência prévia, e bem-sucedida, em biotecnologia.”, acrescenta.

Apesar das inúmeras oportunidades que a bioeconomia pode oferecer ao mercado brasileiro, o seu avanço ainda depende de melhorias no sistema de inovação do país, sendo necessário superar os entraves e gargalos. “Para aproveitar esse potencial, o país precisa criar um ambiente estimulante à inovação, permitindo o desenvolvimento de uma atmosfera propulsora de negócios. Isso só é possível com o estabelecimento de políticas públicas adequadas.”, complementa Thiago Falda.

A Frente Parlamentar Mista pela Inovação da Bioeconomia, lançada em 2019, debate abertamente temas relacionados a inovações biológicas e ao impulsionamento tecnológico e traz como objetivo principal, a construção de uma visão de futuro para o Brasil, consolidando-o como líder da bioeconomia global e referência tecnológica na transição para economia de baixo carbono. Além disso, o Presidente da ABBI aponta que o Brasil vem avançando no âmbito das políticas públicas. “Os normativos no âmbito do Marco Legal de Biossegurança, a recente ratificação do Protocolo de Nagoia pelo Congresso Nacional, o lançamento da Estratégia Nacional de Propriedade Industrial, o plano de combate ao backlog de patentes e a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), são exemplos claros desses avanços.”

Em termos de desenvolvimento industrial, a complexidade do sistema tributário e a alta burocracia são entraves que necessariamente precisam ser solucionados. Soma-se a isso necessidade de se criar um ambiente adequado para atração de investimentos e a criação de mercado para bioprodutos.

Uma vez que o termo bioeconomia pode ser aplicado a vários segmentos, para o estabelecimento de políticas é necessário que seja delimitado um escopo. “Nesse sentido, a ABBI trabalha no contexto de que a bioeconomia engloba toda a cadeia de valor que é orientada pelo conhecimento científico avançado e a busca por inovações tecnológicas na aplicação de recursos biológicos e renováveis em processos industriais para gerar atividade econômica circular e benefício social e ambiental coletivo.” destaca Thiago Falda.

O que o Brasil vem fazendo para impulsionar a bioeconomia no mercado interno

Além da modernização de marcos regulatórios como os de biossegurança, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) vem atuando no desenvolvimento da bioeconomia por meio de diversas ações, com destaque para a iniciativa “Cadeias Produtivas da Bioeconomia MCTI”, que visa fortalecer cadeias produtivas baseadas na biodiversidade por meio do desenvolvimento científico e tecnológico, e o projeto “Oportunidades e Desafios da Bioeconomia – ODBio”, que visa sistematizar a bioeconomia brasileira para as bases da construção de uma Política Nacional de Bioeconomia.

Da mesma forma, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), lançou, em 2020, o Programa Nacional de Bioinsumos com o objetivo de ampliar e fortalecer a utilização de bioinsumos no país que propõem, entre outros pontos, a viabilização de investimentos em inovação e o desenvolvimento de cadeias produtivas regionais, fomento à pesquisa, estímulo à produção sustentável e redução de custos para produção e utilização de bioinsumos. Além disso, destaca-se a implementação, em 2020, da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), que tem como principal objetivo contribuir para o atendimento aos compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris, por meio da introdução de mecanismos de mercado que reconhece a capacidade de cada biocombustível na redução de emissões de carbono.

Considerando o papel fundamental das startups no desenvolvimento da bioeconomia, foi aprovado recentemente pelo Senado Federal, o Marco Legal das Startups que permitirá o estabelecimento de um ambiente regulatório facilitado para o desenvolvimento das atividades de empresas inovadoras no país.

Falando sobre o futuro

Um estudo recente divulgado pela McKinsey prevê que 60% dos insumos físicos para a economia mundial poderiam ser produzidos biologicamente, com potencial de gerar globalmente, nos próximos 10 a 20 anos, cerca de US$2 trilhões a US$4 trilhões de impacto econômico anual direto. No Brasil, a ABBI estima que a biotecnologia industrial – um dos segmentos da bioeconomia – pode agregar ao Brasil, nas próximas duas décadas, aproximadamente US$53 bilhões anuais à economia e mais de duzentos mil novos postos de trabalho qualificados se fossem investidos aproximadamente US$132 bilhões ao longo dos próximos 20 anos. Esses números poderão ser multiplicados com a introdução de mecanismos de mercado para comercialização de créditos de carbono, que poderão ser gerados com base nas emissões evitadas pela adoção de produtos de base biológica e renovável.

A necessidade imediata de uma transição global para uma economia de baixo carbono para mitigar os efeitos das mudanças climáticas já é uma realidade. O ganho da sustentabilidade aliado ao potencial econômico que a bioeconomia traz tem acionado países do mundo inteiro para incluir o tema no centro de suas estratégias de desenvolvimento e crescimento econômico. Os compromissos assumidos pelos países no âmbito do Acordo de Paris vêm sendo refletidos na definição de metas pelo setor produtivo no caminho da neutralidade de emissões.

Assim, para Thiago Falda, Presidente da ABBI, a bioeconomia oferece caminhos viáveis e que contribuem significativamente no processo de transição para uma economia de baixo carbono e coloca o Brasil, com as políticas públicas adequadas, num patamar de protagonismo, convertendo suas vantagens comparativas em vantagens competitivas.

Sobre Thiago Falda:

Atualmente é presidente da ABBI – Associação Brasileira de Bioinovação, é formado em Biologia pela UEL com Doutorado em Genética e Melhoramento de Plantas pela ESALQ/USP. Thiago tem mais de 15 anos de experiência na área de biotecnologia, com destaque para temas relacionados à Biossegurança de OGMs, Propriedade Intelectual e Biodiversidade.

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O que esperar para 2021 no setor de energia?

Em 2019, a maioria das expectativas para 2020 era otimista: a economia mundial e brasileira cresceria, nossa agenda de reformas evoluiria e a maior incerteza era a eleição americana. A pandemia do coronavírus nos relembrou de maneira devastadora como é difícil fazer previsões. Literalmente em poucas semanas, 2020 passou a ser um ano de tragédias, gastos globais em escala inimaginável, avanços heroicos da ciência e mudanças radicais na vida das pessoas. Diante deste quadro, todos imaginamos que problemas muito importantes como os da mudança climática e transição energética, que já enfrentavam dificuldades políticas, seriam ignorados. Novamente, e desta vez de maneira encorajadora, a realidade foi bem diferente do previsto.

A necessidade de fazer gastos trilionários de apoio a pessoas e empresas em dificuldades devido à pandemia acelerou o consenso sobre gastos públicos em um ambiente de taxas de juro nulas, ou até negativas, e que possivelmente durará muitos anos. Numa reversão da doutrina de décadas sobre equilíbrio fiscal, concluiu-se que investimentos maciços em infraestrutura não seriam inflacionários, pois o benefício econômico mais do que compensaria seu pagamento futuro. Como consequência, a União Europeia e o novo governo dos Estados Unidos apresentaram planos de estímulos à recuperação econômica em 2021 que destinam trilhões de dólares na chamada “transição energética”: investimentos em infraestrutura e inovações visando a neutralidade nas emissões de carbono no planeta. Estas políticas governamentais foram acompanhadas pelo setor privado: fundos como BlackRock, que faz a gestão de ativos da ordem de 7 trilhões de dólares, lideraram um movimento de incorporação da agenda ESG (Environment, Society and Government) em todas as análises das empresas em seu portfólio. A mesma agenda ESG está sendo incorporada às análises de risco de bancos de investimento e seguradoras no mundo inteiro, levando a um “círculo virtuoso” muito encorajador.

E como fica o Brasil neste novo ambiente?

Nossa situação em termos de recursos físicos é privilegiada, pois já partimos de uma matriz energética de baixo carbono e dispomos de opções de expansão que são simultaneamente de baixa emissão e economicamente competitivas, o que alinha dois fatores importantes. Nossa matriz energética é, adicionalmente, bem adaptada para a descarbonização de outros setores, como transporte: dispomos de etanol, biodiesel, eletricidade limpa para veículos elétricos e podemos ser competitivos para a produção de hidrogênio “verde”, tema de grande interesse para a Europa e Ásia. Também temos muitas alternativas para utilizar o gás do pré-sal para gerar riqueza ao país com benefícios ambientais, deslocando combustíveis mais poluentes na geração de eletricidade e na indústria, ou até mesmo colocando termelétricas nas plataformas de petróleo, que já dispõem de captura de carbono. Esta abundância de recursos deixa claro que os desafios energéticos do país não são físicos, nem requerem subsídios que poderiam sacrificar outras necessidades da economia. Desta forma, nossa prioridade absoluta deve ser no campo das reformas estruturais, visando criar e/ou modernizar marcos regulatórios necessários que viabilizem a criação de uma economia de baixo carbono eficiente e com instrumentos de transferência dos benefícios para o setor produtivo e sociedade em geral.

Com isto, entramos no tema central deste artigo: o que podemos esperar, e atingir, em 2021?

Por não ser um ano eleitoral, este possivelmente é o último ano para o governo aprovar reformas importantes no legislativo. O setor elétrico, em particular, começa o ano com uma agenda intensa. Há pautas bem encaminhadas, como a Medida Provisória (MP) 998/2020, que remaneja recursos para reduzir as tarifas de energia de consumidores e encerra os subsídios das renováveis. Ela precisa ser apreciada pelo Senado até o início de fevereiro para não “expirar”. Há projetos importantes como a privatização da Eletrobras, mas com evolução incerta; e o projeto de modernização do setor elétrico, que ainda aguarda tramitação no Senado, e deveria ser estar no topo da lista das pautas prioritárias para 2021. Em paralelo, ainda temos projetos relevantes com superposições aos anteriores, o que exigiria uma mínima coordenação legislativa, mas cujo avanço é ainda mais incerto: marco da geração distribuída, marco regulatório do prosumidor de energia elétrica e o código brasileiro de energia elétrica. O setor de gás aguarda com ansiedade o trâmite e aprovação no Congresso do projeto de lei que viabiliza o Novo Mercado de Gás, fundamental para mais eficiência a esta indústria. E a indústria de infraestrutura como um todo aguarda a tramitação do projeto de lei sobre licenciamento ambiental de projetos no Brasil.

No cenário otimista em que todos são aprovados, a atividade regulatória será ainda mais intensa. Por falar em regulação, é no setor elétrico que estão as maiores expectativas. O mercado espera resolver definitivamente a judicialização do risco hidrológico que permitirá o destravamento da CCEE e aguarda a abertura pela ANEEL de uma consulta pública sobre a segurança financeira das operações de comercialização no mercado. Em a MP 998 sendo aprovada, as diretrizes do mecanismo que substituirá o atual esquema de incentivos às renováveis precisarão ser anunciadas em até 12 meses após a publicação da nova lei, tornando 2021 um ano essencial para as discussões relacionadas. Em temas mais específicos, as discussões acerca da revisão das condições comerciais da compra da energia de Itaipu pelo Brasil (Anexo C) precisam avançar, assim como a regulamentação do “constrained off” eólico, solar e hidroelétrico e as adequações regulatórias para implantação de usinas híbridas de sistemas de armazenamento. No segmento de distribuição, as empresas aguardam a decisão final da ANEEL sobre o reequilíbrio contratual pelos impactos da pandemia. Estas mesmas empresas aguardam com ansiedade as discussões sobre a revisão da regulação sobre a geração distribuída, pauta que também circula no legislativo.

Pelo lado da comercialização de energia, 2021 já inicia com o preço da energia no atacado (PLD) em base horária, um vetor de eficiência que melhora o sinal econômico, permite criar novos produtos e serviços e demandará novas práticas de gestão de riscos ao mercado. Embora o consumidor cativo ainda não perceba estes sinais econômicos, sua implementação é um avanço. Da mesma forma, os primeiros derivativos financeiros começaram a ser negociados no Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia (BBCE), um importante passo para separar os mercados físicos e financeiros de eletricidade.

Os leilões do setor elétrico oferecerão oportunidades de investimento em geração e transmissão. O “tamanho” dos leilões de geração dependerá muito da recuperação econômica e do ritmo de crescimento do mercado livre e da geração distribuída, que em 2020 “puxaram” os investimentos em renováveis e assim seguirão. A ANP retomou os processos para a 17ª rodada de licitações de blocos de exploração e produção de óleo e gás. E espera-se que, também em 2021, na área do pré-sal, ocorram a 7ª rodada de licitação e que o governo oferte novamente as áreas de Sépia e Atapu, no pré-sal da Bacia de Santos. O sucesso destes leilões dependerá das expectativas de investidores com o mercado de óleo e gás interno e externo, que por sua vez, possuem oportunidades e riscos em função dos avanços regulatórios no Brasil (caso do gás), dos leilões de energia e do sucesso da implementação dos pacotes de energia limpa em outros países, que afetam as expectativas de consumo e preço destes energéticos.

E no meio de toda esta agenda, 2021 inicia com as hidroelétricas com reservatórios muito baixos e recebendo chuvas bem abaixo da média histórica. Certamente isto provocará debates acalorados sobre a segurança de suprimento de eletricidade e acirrará os conflitos pelos usos múltiplos da água. A situação física de fato inspira monitoramento e cuidados e 2021 será mais um ano onde os preços e tarifas de energia estarão vulneráveis à realização das chuvas.

Por fim, os crescentes avanços tecnológicos, acelerados em 2021 pelos pacotes de transição à economia de baixo carbono de muitos países, introduz uma oportunidade para plataformas que fomentem inovação em tecnologia, serviços e modelos de negócios. Marketplaces entre investidores e startups é o que o Brasil precisa para, no meio da modernização de nossos marcos regulatórios, traduzir nossa oportunidade energética em mudanças com benefícios para a sociedade.

Sabemos que fazer previsões é difícil, especialmente sobre o futuro. Mas como dito por Antoine de Saint-Exupery, o futuro não é um lugar onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando. Ou, nas palavras de Alan Kay, o inventor da interface gráfica dos computadores da Apple, não conseguimos prever o futuro, mas sim inventá-lo. E nesse sentido, a agenda de trabalho do setor de energia para 2021 será, como em anos anteriores, fundamental no contínuo processo de construção de inovações para uma indústria melhor.

Sobre Luiz Barroso:

Luiz Barroso é Presidente da PSR. Foi presidente da EPE e visitante na Agência Internacional de Energia. Possui experiência de mercado e acadêmica em planejamento, operação, regulação e gestão de riscos em mercados de energia e gás em mais de 30 países.  É graduado em matemática e possui doutorado em matemática aplicada (otimização) pela COPPE-UFRJ.

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Tendências no setor de energia para 2021

Tendências no setor de energia para 2021

O ano de 2020 foi marcante em muitos aspectos. A pandemia de Covid-19 também não passou despercebida no setor energético. As medidas de isolamento social impactaram a atividade econômica e, consequentemente, a demanda de energia, tanto combustíveis como eletricidade. Todavia, os mercados energéticos e sistemas elétricos se mostraram resilientes. Políticas para atenuação dos impactos socioeconômicos e manutenção da segurança energética foram adotadas.

Passada uma fase mais aguda e de maiores incertezas, embora ainda sem um desfecho bem definido para a crise do coronavírus, é momento oportuno de mirar no futuro. Dois instrumentos elaborados pela EPE se mostram úteis para nortear nossas perspectivas e orientar ações, tanto no setor público como no privado: o Plano Nacional de Energia 2050, aprovado pelo Ministério de Minas e Energia em dezembro de 2020, e o Plano Decenal de Expansão de Energia 2030, colocado em consulta pública pelo mesmo Ministério e no mesmo mês.

Com base nesses dois instrumentos, e num conjunto de iniciativas públicas e privadas em curso, destaco alguns pontos que merecem a atenção do mercado em 2021.

Janeiro de 2021 marca a estreia, no mercado atacadista de energia elétrica, da formação de preços em base horária, evoluindo a partir de sistema de preços em base semanal. Esse avanço ocorre após muito debate, aprimoramentos técnicos e mais de 18 meses de preço sombra desde essa decisão de aumentar a granularidade desse importante sinal econômico.

Com essa mudança, aqueles agentes que melhor souberem fazer a gestão da sua demanda e/ou oferta terão oportunidade de auferir ganhos de competitividade. Essa mudança torna os preços mais coerentes com a efetiva dinâmica de oferta e demanda e, portanto, dos reais custos do sistema, de forma que o comportamento e as escolhas dos agentes possam ser mais eficientes. Em termos práticos, sinais mais efetivos para provocar a resposta da demanda e, pelo lado da oferta, aperfeiçoar a competitividade relativa das várias fontes, com ganhos sistêmicos, principalmente no médio e longo prazos.

Ainda no setor elétrico, o Congresso Nacional deve avançar no debate sobre as necessárias mudanças no arcabouço legal que definem o desenho do mercado, para que possamos ter um ambiente mais compatível com a profusão de novos modelos de negócios e tecnologias que vêm emergindo no curso da transição energética.

Enquanto isso, seguimos viabilizando a expansão da geração com os instrumentos vigentes. Para 2021, foi anunciada a retomada dos leilões de “energia nova”, após sua suspensão durante os primeiros meses de pandemia. Com um ambiente menos turvo quanto às perspectivas de crescimento da demanda, as distribuidoras deverão voltar a declarar necessidade para atendimento a seus mercados cativos nos anos futuros, criando condições para investimentos no aumento da capacidade instalada. Nesse contexto, as fontes renováveis, com destaque para a eólica e a solar fotovoltaica, assumem grande protagonismo, pelos seus méritos econômicos e contribuição para a redução das emissões de carbono.

Outra tendência é a continuidade no crescimento do mercado livre e da autoprodução de energia elétrica, em ambiente que se beneficia dos consistentes ganhos de competitividade das fontes renováveis ao longo dos anos e da atual alocação de custos do setor. Aliás, no contexto de um processo gradual de abertura do mercado a ser seguido, é praticamente inimaginável que não caminhemos no sentido de um mercado livre que alcance consumidores na baixa tensão, consumidores residenciais, como eu, como você. A digitalização está reduzindo drasticamente os custos de transação e a possibilidade de customizar, a baixo custo, soluções e serviços energéticos para cada perfil de consumidor.

Até 2030, o mercado livre, cada vez mais dinâmico e abrangente, alavancado pelas reformas em debate e pelo avanço da digitalização, deve incorporar também os recursos energéticos distribuídos como parte do portfólio de soluções, em combinação com as usinas centralizadas e o sistema de transmissão. Empresas inovadoras têm experimentado modelos de negócios que integram a comercialização de energia a outros serviços, como geração distribuída, resposta da demanda, eficiência energética, armazenamento, usinas virtuais, entre outros.

Os recursos energéticos distribuídos seguem ganhando força. Por um lado, a resposta da demanda, isto é, a capacidade de consumidores variarem sua demanda conforme os sinais econômicos, ainda não deslanchou no Brasil. A experiência internacional, todavia, traz evidências fortes de que a resposta da demanda pode trazer muito valor ao mercado, e devemos esperar que a regulação para avance no Brasil. Por outro lado, a geração distribuída segue em franca expansão, e de acordo com projeções da EPE, representa um mercado de R$ 50 bilhões em investimentos nos próximos 10 anos. Não obstante, a adequada alocação de custos e benefícios da geração distribuída ainda é tema de embates.

Para além do setor elétrico, chamaria atenção para mudanças no mercado de gás natural e no mercado de biocombustíveis no Brasil.

No primeiro caso, a aprovação de novo arcabouço legal pelo Congresso deve ampliar o espaço para investimentos, que tem potencial diversificado de usos, podendo ser fator relevante de competitividade para setores industriais e para a redução da pegada de carbono pela substituição de consumo de mais emissores, como diesel e coque, no próprio setor industrial, mas também nos transportes de carga de longa distância. Além de ambiente regulatório mais favorável a novos entrantes e ampliação da competição, pressionando para a redução de ineficiências, há potencial para aumento da oferta de gás, principalmente pela produção nacional e pela importação de gás natural liquefeito.

No caso dos biocombustíveis, o ambiente combina o momento de implementação do RenovaBio (Política Nacional de Biocombustíveis) e seu mercado de CBIOs (créditos de descarbonização por biocombustíveis), com metas para os próximos 10 anos. Destaco ainda a perspectiva de avanços tecnológicos em bioenergia e biomateriais e sua aplicação em mercados ainda dominados pelos derivados do petróleo, como aviação e navegação.

Na interface entre o gás natural e os biocombustíveis, está o enorme potencial do biogás e biometano (biogás purificado a nível similar ao gás natural de origem fóssil). Esse potencial decorre na possibilidade de aproveitamento energéticos dos resíduos da agropecuária em quase todo o território nacional, independente de infraestrutura de gasodutos, o que pode ser consultado no SIEnergia, sistema público da EPE que permite conhecer em detalhes esse potencial. O biogás pode ser utilizado na geração de energia elétrica, principalmente em pequenas usinas, ou em frotas de tratores, caminhões ou ônibus, apenas para citar alguns exemplos. O preço das tecnologias de produção e uso de biogás também tem se tornado mais acessível e é uma importante forma de aumento da sustentabilidade ambiental.

Por fim, há uma grande movimentação de países e empresas para consolidarem novos mercados que prometem viabilizar a transição energética a partir da redução da pegada de carbono em setores chamados “difíceis de descarbonizar”, como segmentos industriais e transportes. Há um rol diversificado de possíveis combustíveis renováveis ou de baixo carbono que se somam aos biocombustíveis. O hidrogênio tem despontado como grande “celebridade” nesse contexto. Há uma onda de novas estratégias nacionais de hidrogênio sendo anunciadas e uma corrida para marcar posição em países com melhores recursos para a produção competitiva do hidrogênio de baixo carbono ou renovável. O Brasil está na mira.

O hidrogênio pode ser produzido a partir de diversas fontes e por diversas rotas tecnológicas, conferindo uma grande versatilidade ao seu uso como “portador energético” (carrier, em inglês), sendo capaz de substituir usos finais diretos de combustíveis fósseis na indústria, nos transportes e até no setor elétrico. O custo elevado ainda é uma barreira, mas a expectativa de muitos é que os custos caiam fortemente nos próximos anos, embora a conta de subsídios até que isso se confirme não seja desprezível.

O Brasil pode se contentar em ser importador de tecnologias e exportador de hidrogênio como commodity para indústrias no exterior. Mas o país pode muito mais do que isso. O Brasil tem uma ativa comunidade de pesquisa e desenvolvimento em hidrogênio e tem potencial para ser um ator de primeira linha nesse mercado, com empresas focadas em inovação tecnológica, e tirando proveito da abundância e diversidade de recursos energéticos de que dispõe o país para gerar efetiva criação e desenvolvimento socioeconômico no ritmo da transição energética.

O ano de 2021 nos guarda muitas oportunidades no setor de energia. Que escolhas faremos?

Sobre Thiago Barral: 

Atual Presidente da Empresa de Pesquisa Energética – EPE, Thiago Barral é Engenheiro Civil de formação e funcionário de carreira da EPE desde 2007. Na sua trajetória na EPE, desenvolveu trabalhos que vão desde a definição de diretrizes e cálculo de preço-teto para os leilões de energia e planejamento do suprimento aos sistemas isolados, até estudos de mercado e demanda de energia, geração distribuída e eficiência energética, passando por estudos socioambientais associados à expansão da infraestrutura de energia.

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