Category: Bioeconomia

Uma Revolução pela Sustentabilidade

Uma revolução pela Sustentabilidade

Rômulo Sousa Lisboa, Diretor de Desenvolvimento e Qualidade na STCP é nosso especialista convidado, com 30 anos de experiência na execução e gerenciamento de projetos relacionados à área de meio ambiente, geoprocessamento e florestas.

Inspirado no evento Cidadão Global 2021 que ocorreu em 25 de maio de 2021, promovido pelo banco Santander e Valor do Grupo Globo, Rômulo Lisboa traz alguns highlights sobre a necessidade de se mitigar os impactos ambientais, destacando a importância das práticas sustentáveis, critérios ESG (Environmental, Social and Governance) e transição econômica rumo à economia de baixo carbono.

Em sua introdução destacou “Para a efetiva implementação dos critérios ESG, temos que ter e valorizar o conhecimento acumulado. Com este conhecimento planejar de forma adequada as ações necessárias à implementação dos critérios, promover o engajamento de todos os stakeholders nos diversos níveis hierárquicos e de atuação, caso contrário o efetivo compromisso com ESG não ocorrerá nas corporações.

O protagonista do evento foi o ex-vice-presidente dos Estados Unidos e ambientalista Al Gore e segundo ele, o planeta vive ‘’revolução’’ pelo clima. Desde 2006, em seu documentário “Uma verdade inconveniente”, Al Gore vem fazendo esse apelo global sobre a responsabilidade dos nossos atos em relação à sustentabilidade do planeta.

O ambientalista destaca que a “revolução da sustentabilidade” é um caminho sem volta e deve ser intensificada nas próximas décadas, na mesma velocidade da revolução digital. Ainda, ele reforça que o mundo precisa levar a sério o aquecimento global e que a transição para uma economia de baixo carbono pode trazer oportunidades de retomada econômica, incluindo o Brasil. A exemplo disso, Al Gore comenta que ‘’O Brasil pode gerar toda a energia que precisa somente com energia solar, ocupando menos de 0,8% de sua área total’’.

Um outro fato interessante mencionado pelo ex-presidente dos Estados Unidos é de que as pessoas como consumidores começaram a exigir das empresas uma mudança em direção à sustentabilidade. E junto a esse movimento, lideranças corporativas começam a investir em ativos alinhados às premissas ESG. No entanto, Al Gore ressalta que “A meta tem de ser reduzir de fato as emissões, em vez de confiar na compensação de carbono”.

Falando do cenário brasileiro, Al Gore demonstra sua preocupação ao falar do desmatamento da Amazônia e destaca que o PIB pode sofrer uma queda de 17% até 2048, caso o Brasil não adote medidas de combate ao aquecimento global. Apesar do elevado potencial em produção de energia limpa como a energia solar e eólica, que pode compensar as emissões de gases de efeito estufa, apenas em 2020, o Brasil perdeu mais vegetação primária do que qualquer outro país.

Sem dúvida, afirma Rômulo, temos que ter controle sobre os processos de uso dos recursos no Brasil, de forma sustentável e que garanta para a gerações futuras a manutenção desse bem maior. No entanto o dever de casa vale para todos os países, em especial para Europa e América do Norte que já se apropriaram das coberturas vegetais naturais em todo o seu território. As experiências vivenciadas por esses países devem servir de exemplo do que não fazer. Até porque todos devem estar efetivamente dispostos a pagar pela conservação dos bens, independentemente de divisões territoriais.

Além da presença de Al Gore, esse evento contou com a participação de José Roberto Marinho, Vice-presidente do Grupo Globo e Sérgio Rial, Presidente do Santander Brasil e Head do Santander na América do Sul.

José Roberto Marinho afirmou que a sustentabilidade tem de ser associada à educação e informação e que a transformação energética sem precedentes, impulsionada pela economia livre de carbono, demanda aptidões profissionais alinhadas às premissas globais como: Engenheiros que desenvolvam projetos de infraestrutura verde; Biólogos que descubram nas plantas da Caatinga e do Cerrado o que as deixa adaptadas naquele clima de estresse árido; Agrônomos que produzam alimentos sem causar a destruição do solo e rios; Engenheiros Florestais que saibam imitar o que a natureza faz e Economistas que pensem além do PIB.

A importância de nossos profissionais e sua capacidade de adaptação e adequação de seu conhecimento às novas oportunidades foi destacada por Rômulo, principalmente na agregação do conhecimento local (tradicional) sobre diversidade dos recursos e potencial de destinação, em especial a bioeconomia, tema tão debatido atualmente quanto à sua riqueza de produtos não madeireiros oriundos, principalmente da Amazônia.

Já Sérgio Rial destacou que o mercado financeiro está no epicentro da questão climática e que é dever do mercado financeiro estimular o desenvolvimento de tecnologias “escaláveis” de baixo carbono. Ainda, o presidente do Banco Santander destacou que os investimentos e objetivos das empresas privadas estão indo além da obtenção de lucro, ressaltando novos valores da cultura corporativa direcionada a investimentos não financeiros associados à consciência e responsabilidade social e ambiental.

Sérgio Rial reforçou a importância da tecnologia como ferramenta estratégica para mapear nossa biodiversidade e afirmou que o conhecimento local é fundamental em termos de conservação e prosperidade da população regional.

Diante de um cenário de verdadeira revolução pela sustentabilidade do planeta, a Bioeconomia vem ganhando destaque como a nova economia baseada no baixo carbono. E o Brasil, apesar dos desafios, tem grandes oportunidades para liderar esse movimento global rumo ao desenvolvimento sustentável das cadeias produtivas.

Rômulo comentou que: “Temos hoje, pelo menos, mais de uma centena de projetos em desenvolvimento que contribuem de forma significativa para a economia do Brasil, a exemplo das Cadeias Produtivas do Açaí, Castanha, Cacau, Piscicultura, Erva-Mate, Óleos essenciais (Andiroba, Cumaru) entre outros.”

“Segundo a Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI) – potencial adicional ao PIB nacional de US$ 53 bilhões por ano, com o mercado verde”.

Sobre Rômulo Lisboa:

Rômulo é Engenheiro Florestal, especialista em planejamento e inventário e atualmente Diretor de Desenvolvimento e Qualidade da STCP. Possui 30 anos de experiência na execução e gerenciamento de projetos na área de meio ambiente e florestas, tendo conduzido diversos estudos estratégicos para uma diversidade de empresas e organizações nacionais e estrangeiras relativos a licenciamento ambiental, planejamento da produção, due diligences, prognoses de produção, gestão florestal, inventário florestal, planos de manejo de UCs, avaliação de ativos e estudos de viabilidade e pagamentos por serviços ambientais. Também é responsável pela organização do Fórum Sustentabilidade e Governança em suas  7ª edições ocorridas.

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8 Anos de história movida a biogás

8 Anos de história movida a biogás

Em entrevista exclusiva, conversamos com Rafael González, Diretor Presidente do CIBiogás e Felipe Marques, Diretor de Desenvolvimento Tecnológico do CIBiogás para falar sobre como a cadeia do biogás vem se desenvolvendo no Brasil e como a inovação vem fazendo parte da trajetória da instituição, que em 2021, completa 8 anos.

Panorama do Biogás no Brasil

Recentemente foi lançada a Nota Técnica que referencia o Panorama do Biogás no Brasil no ano de 2020 e é possível perceber que, mesmo que ainda tímido, o setor de biogás vem crescendo de forma significativa no país.

O fortalecimento da cadeia de fornecedores nacionais tem sido um dos principais aspectos para o crescimento do setor de biogás. “O domínio tecnológico aumentou bastante nos últimos anos, entregando aos interessados em produzir biogás, plantas com propostas mais robustas.” destaca Felipe Marques.

O desenvolvimento de modelos de negócios para a realidade nacional também permitiu que mais empreendedores do biogás tenham encontrado resultados relevantes em suas plantas, com a possibilidade de atração de investimentos, acrescenta o Diretor de Desenvolvimento Tecnológico do CIBiogás.

Além disso, o debate técnico entre as lideranças das diversas esferas governamentais tem promovido maior destaque ao biogás, no que se refere ao desenvolvimento de uma legislação mais segura e possíveis linhas de créditos, com perspectivas positivas focadas na transição energética nacional.

“A modernização da matriz energética é uma realidade que o país está enfrentando. Com isso, as energias renováveis e, por sua vez, o biogás, ganham relevância política e governamental. Essa movimentação aquece o interesse de investidores, sim, mas também acaba trazendo em pauta o tratamento de resíduos como uma solução polivalente para demanda energética, ambiental, econômica e social.” Comenta Rafael González.

Biogás: uma fonte energética circular e resiliente

A transformação da biomassa oriunda dos dejetos animais, resíduos agroindustriais e resíduos sólidos urbanos oportuniza, não apenas a geração da energia térmica ou elétrica a partir do biogás produzido, mas também, a obtenção de produtos secundários de alto valor agregado como o biometano e o biofertilizante.

A versatilidade do biogás amplia as oportunidades de geração de renda e vai de encontro às políticas de mitigação das mudanças climáticas. É possível perceber uma característica singular da cadeia do biogás que traz, na prática, o conceito de economia circular e desenvolvimento sustentável. Além disso, incentiva a descentralização na geração, não apenas de energia, mas também na geração de recursos, favorecendo o desenvolvimento econômico local.

O Brasil tem clima favorável, dimensões continentais e uma atuação econômica nacional e internacional que resulta numa alta concentração de produtos que devem ser convertidos em ativos energéticos, comenta Rafael González. Por esta e outras razões, o Brasil pode ser o grande protagonista mundial na cadeia do biogás, reunindo as melhores características para se estabelecer como referência em sustentabilidade energética.

Felipe Marques destaca que em pouco tempo, o agronegócio brasileiro poderá se apresentar ao mundo como o mais verde do planeta. “Um exemplo para ilustrar são os caminhões da logística de transporte do interior para os portos rodando com biometano e gás natural. Outro exemplo, são os resíduos urbanos orgânicos sendo utilizados para produzir biometano para o transporte público. Dois exemplos que conectam com a circularidade e regionalização econômica.” acrescenta Felipe.

Dados apresentados pela ABiogás apontam que o biometano pode suprir até 70% da demanda de diesel. O BiogásMap, ferramenta digital desenvolvida pelo CIBiogás, indica ainda um crescimento no número de plantas de biometano, de pequeno a grande porte, em torno de 6x mais no ano de 2020 se comparado ao ano de 2019.

O presidente do CIBiogás, Rafael González, ressalta que o Brasil tem potencial para produzir 82,58 bilhões de metros cúbicos ao ano, considerando os setores sucroenergético, saneamento, proteína animal e produção agrícola (ABiogás, 2021). Deste potencial, no último levantamento do CIBiogás, aproveitamos apenas 4% (1,83 Nm3/ano).

Se compararmos o cenário brasileiro, ao mercado internacional como o da Alemanha, por exemplo, é possível perceber que mesmo em condições não tão favoráveis como as do Brasil, a Alemanha vem liderando o mercado de biogás. “O que falta é ter leis e incentivos fiscais, maior divulgação de ações e projetos de sucesso, desenvolvimento de políticas públicas e agenda política estratégica para dar atenção à fonte no Brasil.”, destaca o presidente do CIBiogás.

8 Anos de muita energia movida a biogás e inovação

O CIBiogás e seus associados já vem contribuindo há 8 anos pelo menos para a democratização do biogás, entregando projetos de Pesquisa & Desenvolvimento, estruturando novas modelagens de negócios e arranjos produtivos, além de informação de alto nível e capacitação de mão de obra especializada. São diversas linhas de atuação e sabemos que podemos produzir biogás em todos os estados brasileiros, mas ainda queremos mais, queremos que o Brasil todo tenha acesso aos benefícios do desenvolvimento deste energético em nossa matriz.

Inovação é nosso café da manhã no CIBiogás. Me orgulha o time inquieto que temos, buscando sempre formas de produzir mais biogás, aumentar performance, modelar novos negócios, aproximar fornecedores e desenvolver novas tecnologias. Temos um ambiente crítico, cooperativo e colaborativo no nosso centro, focado no pensamento criativo e inovador.” destaca Felipe Marques.

Rafael González acrescenta que a inovação é a essência da instituição. “A partir do momento que desenvolvemos uma solução, ela é entregue à cadeia de biogás e a nossa equipe busca trabalhar para melhorar o que foi entregue e/ou encontrar outras questões para solucionar. Essa é a nossa missão. Partindo deste princípio, entendemos que “pensar fora da caixa” é essencial quando temos que lidar com recursos, desenvolvimento de conhecimento e pesquisas… e esses são os nossos grandes desafios”.

Atualmente, o CIBiogás domina o conhecimento técnico das tecnologias existentes no mercado interno e de seus custos, e busca sempre aprimorar seu know-how por melhores performances e técnicas de aproveitamento total da biomassa, inclusive buscando parcerias nacionais e internacionais para aperfeiçoamento tecnológico e econômico.

Nos 8 anos do CIBiogás são os desafios que motivam o progresso. O presidente da instituição cita com orgulho a estruturação do Laboratório de Biogás, que neste ano completa uma década de atuação dedicada ao ensaio de biomassa, e que hoje analisa diariamente como fazer com que plantas de biogás performem cada vez melhor. “Recebemos amostras do mundo inteiro, e seguramente temos o maior banco de dados relacionados à produção e potencial de biogás do Brasil. Além de gerar esses dados, administrá-los de forma adequada, respeitando as características de cada região e cliente, e adaptando as soluções também é um grande desafio.” complementa.

As novidades do CIBiogás ainda para este ano são: linhas de crédito/financiamento destinadas ao produtor rural, grandes parcerias com municípios para utilização do biogás e biometano de aterros para produção energética, arranjos coletivos robustos para tornar cidades mais sustentáveis, com o desenvolvimento da bioeconomia regional e também a utilização do biometano em veículos pesados.

Para saber mais acesse: https://cibiogas.org/

Sobre Rafael Hernando Aguiar Gonzalez:

Engenheiro Ambiental e mestrando em Engenharia e Tecnologia Ambiental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Há mais de 10 anos atua na captação e gestão de projetos na área de energias renováveis. Participou do desenvolvimento do Plano de Negócios e estruturação do Centro Internacional de Energias Renováveis, CIBiogás, em 2012. Em 2016 assumiu a Diretoria de Desenvolvimento Tecnológico e em 2020 assumiu a Diretoria Presidência do CIBiogás, conduzindo projetos estratégicos e consolidação empresarial. Atualmente é conselheiro da Associação Brasileira de Biogás (ABiogás) e do Conselho Diretivo do Projeto GEF/Brasil – Biogás (Aplicações do Biogás na Agroindústria Brasileira).

Sobre Felipe Marques:

Felipe Marques atua há mais de 10 anos no setor de biogás, com maior ênfase no desenvolvimento de arranjos tecnológicos e de negócios em energia e sustentabilidade no mercado brasileiro. No agronegócio participou de projetos com modelos inovadores, como condomínios de agroenergia, mobilidade a biometano, geração distribuída e microgrids. Esteve à frente da empresa Bioplan Biogás por três anos e atualmente é diretor de Desenvolvimento Tecnológico do Centro Internacional de Energias Renováveis – o CIBiogás. Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Agronegócio pela UNIOESTE, cuja linha de pesquisa se objetiva no estudo das cadeias produtivas do biogás. Felipe é Engenheiro Ambiental, mestre em Geografia, Meio Ambiente e Desenvolvimento e possui MBA em Gerenciamento de Projetos.

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O contexto do Nexo Água-Energia-Alimentos no cenário do biogás e biometano

O contexto do Nexo Água-Energia-Alimentos no cenário do biogás e biometano

O aumento populacional previsto para os próximos anos tem elevado a preocupação dos países com relação ao meio ambiente e formas mais sustentáveis de ampliar as cidades. O relatório “Perspectivas da Urbanização Mundial” (World Urbanization Prospects), produzido pela Divisão das Nações Unidas para a População do Departamento dos Assuntos Econômicos e Sociais, da ONU (2019), aponta que a população global deverá chegar a 8,5 bilhões em 2030, 9,7 bilhões em 2050 e 10,9 bilhões em 2100, representando grandes desafios para a gestão das cidades.

De acordo com o relatório, há 100 anos, apenas 10% da população mundial vivia nas cidades. Hoje este índice é de 50% e tende a aumentar nos próximos anos, chegando a 75% até 2050. Esse cenário indica que três quartos da população mundial passarão a ocupar áreas que hoje são cobertas por vegetação, devastando matas para criar espaços diminutos de sobrevivência, possivelmente, utilizando recursos naturais sem restrição e poluindo o ar, o solo e as águas. Isso acarreta significativo crescimento na demanda por novas infraestruturas, elevação no consumo de energia e de água, além de outros problemas relacionados aos aspectos sociais e culturais, implicando em desafios ao poder público e privado, gestores ambientais e cidadãos. E neste contexto, o conceito de nexo alimento-água-energia se torna cada vez mais importante à medida que a natureza complexa e inter-relacionada desses recursos globais é compreendida e a necessidade de uma gestão mais coordenada desses ativos em todos os setores e escalas é cada vez mais evidente.

A água é necessária para a produção de quase todas as formas de energia. Para combustíveis primários, a água é utilizada na extração de recursos, irrigação de matérias primas para biocombustíveis, refino e processamento de combustíveis e transporte. Na geração de energia em usinas térmicas, por exemplo, a água fornece o resfriamento e outras necessidades relacionadas com o processo. No caso das hidroelétricas, os equipamentos aproveitam o movimento das águas para a produção de eletricidade.

Já a produção de alimentos está diretamente ligada ao consumo de água e energia e, se não houver uma boa gestão dos resíduos, acaba por poluir os corpos hídricos. Por isso a importância da abordagem desse nexo, identificando as possíveis sinergias entre esses 3 elementos.

A relação entre o NEXO e a Cadeia de Biogás

O biogás representa uma fonte de energia renovável e sustentável, sendo obtido a partir do tratamento de resíduos vegetais, animais, humanos e industriais, amplamente disponíveis em uma ou mais dessas formas em qualquer cidade. É composto principalmente por metano (CH4), que é 21 vezes mais poluente do que o dióxido de carbono (CO2) quando lançado na atmosfera. As emissões de CO2, que são liberadas na atmosfera durante a combustão do biogás e biometano, são iguais à quantidade de dióxido de carbono que é emitida durante a decomposição natural da matéria orgânica original. Com isso, o perfil negativo da intensidade do carbono aparece à medida que a purificação do biogás em biometano reduz o teor de CO2 e não será lançado na atmosfera, demonstrando seu elevado grau de descarbonização.

Além disso, os sistemas de geração de biogás têm potencial para transformar passivos ambientais em ativos econômicos, por meio da conversão em energia elétrica, térmica e para uso veicular, além de proporcionar maior segurança energética. Quando purificado, o biogás pode ser convertido em biometano, que pode auxiliar na diversificação da matriz energética em substituição aos combustíveis fósseis, principalmente para mobilidade urbana mais sustentável.

A transição para combustíveis de baixo carbono nos sistemas de transporte urbano parece ser inevitável. A dependência histórica de combustíveis fósseis como fonte primária de energia para a urbanização pós-industrial está sendo fortemente questionada, dada a disponibilidade cada vez menor de petróleo e as consequências sociais, econômicas e principalmente ambientais de seu uso generalizado.

Em 2019, as reservas de petróleo conhecidas no mundo atingiram 1,7 trilhão de barris, permanecendo no mesmo nível de 2018, com uma pequena queda de 0,1% (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – ANP, 2020). O petróleo, embora finito, nunca se esgota inteiramente, pois sempre haverá uma quantidade que, por razões puramente econômicas, não será extraída. O conceito de “esgotamento” da reserva de petróleo se aplicaria à disponibilidade de petróleo a um preço viável em comparação com fontes alternativas de energia. Mesmo assim, considerando um consumo global em torno de 95 milhões de barris / dia (ANP, 2020), as reservas mundiais conhecidas/identificadas se esgotariam em cerca de 50 anos, demonstrando a necessidade de diversificação e substituição dessa fonte por fontes renováveis e mais sustentáveis.

As consequências ambientais diretas e indiretas da exploração e uso massivo de combustíveis fósseis tem sido um argumento cada vez mais importante na sociedade e a busca por fontes alternativas de energia com menor impacto tem levado diversos países a investirem recursos significativos, principalmente nas últimas três décadas. E nesse cenário o biogás e biometano se destacam, sendo uma fonte intrinsicamente relacionada ao nexo água-energia-alimentos e tendo diversos impactos positivos nas questões ambientais, econômicas, sociais e tecnológicas. Deve-se destacar os impactos positivos para o desenvolvimento social local, uma vez que o processo de produção de biogás e biometano constitui e sustenta uma cadeia produtiva relativamente complexa, exigindo mão de obra local especializada, apoio técnico e científico, e conscientização e empoderamento da população local relacionada aos processos.

Nesse contexto, o nexo água-energia-alimentos explora interfaces de vários setores e em várias escalas, levando em consideração as configurações locais, regionais e transfronteiriças e as compensações e sinergias criadas pelo uso competitivo de recursos e agendas políticas, exigindo coordenação intersetorial e transversal para a integração e gestão de recursos e governança ambiental.

Sobre Janaina Camile Pasqual Lofhagen:

Doutora em Gestão Urbana (PUCPR), com doutorado sanduíche na Universidade do Arizona (EUA). Pós Doutorado em Gestão Urbana na PUCPR e University of Central Florida (EUA). Mestre em Cadastro Técnico Multifinalitário e Gestão Territorial pela UFSC. Graduada em Relações Internacionais e em Administração de Empresas. Atuou como Supervisora de Negócios da Granja São Roque (primeira propriedade rural a gerar energia elétrica a partir do biogás dos dejetos de suínos, em SC). Foi consultora em Gestão Pedagógica da Fundação Parque Tecnológico Itaipu e do Centro Internacional de Energias Renováveis Biogás (CIBiogás), participando da estruturação e implantação de Cursos a Distância. Foi pesquisadora da Federação das Indústrias do Paraná (FIEP), atuando na análise de ambientes urbanos mais sustentáveis e fontes renováveis de energia. Foi consultora da UNIDO e atualmente é professora de Pós Graduação na PUCPR e UTFPR. Tem diversas parcerias nacionais e internacionais relacionadas a energias renováveis e smart cities, com foco na gestão urbana mais sustentável e mobilidade urbana sustentável.

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A Bioeconomia e o Brasil: Oportunidades e Desafios

A Bioeconomia e o Brasil: Oportunidades e Desafios

Associação Brasileira de Bioinivação concede entrevista exclusiva ao NRGHub e fala sobre políticas públicas, inovação e muito mais. 

Em entrevista exclusiva ao NRGHub, Thiago Falda, atual presidente da ABBI compartilha sua visão sobre o cenário atual da bioeconomia brasileira, aponta oportunidades e desafios e destaca como o Brasil pode se tornar uma potência global neste assunto.

A bioeconomia tem sido considerada um pilar estratégico para o desenvolvimento econômico em diversos países (especialmente, os Europeus), podendo impulsioanr a economia na ordem dos bilhões. Para Thiago Falda, presidente da ABBI, o Brasil possui diferenciais importantes que o permitem se tornar líder global da bioeconomia. “Temos a maior produção de biomassa e ao menor custo do planeta, a maior biodiversidade do mundo, uma agricultura sustentável e altamente eficiente, além de recursos humanos altamente capacitados e experiência prévia, e bem-sucedida, em biotecnologia.”, acrescenta.

Apesar das inúmeras oportunidades que a bioeconomia pode oferecer ao mercado brasileiro, o seu avanço ainda depende de melhorias no sistema de inovação do país, sendo necessário superar os entraves e gargalos. “Para aproveitar esse potencial, o país precisa criar um ambiente estimulante à inovação, permitindo o desenvolvimento de uma atmosfera propulsora de negócios. Isso só é possível com o estabelecimento de políticas públicas adequadas.”, complementa Thiago Falda.

A Frente Parlamentar Mista pela Inovação da Bioeconomia, lançada em 2019, debate abertamente temas relacionados a inovações biológicas e ao impulsionamento tecnológico e traz como objetivo principal, a construção de uma visão de futuro para o Brasil, consolidando-o como líder da bioeconomia global e referência tecnológica na transição para economia de baixo carbono. Além disso, o Presidente da ABBI aponta que o Brasil vem avançando no âmbito das políticas públicas. “Os normativos no âmbito do Marco Legal de Biossegurança, a recente ratificação do Protocolo de Nagoia pelo Congresso Nacional, o lançamento da Estratégia Nacional de Propriedade Industrial, o plano de combate ao backlog de patentes e a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), são exemplos claros desses avanços.”

Em termos de desenvolvimento industrial, a complexidade do sistema tributário e a alta burocracia são entraves que necessariamente precisam ser solucionados. Soma-se a isso necessidade de se criar um ambiente adequado para atração de investimentos e a criação de mercado para bioprodutos.

Uma vez que o termo bioeconomia pode ser aplicado a vários segmentos, para o estabelecimento de políticas é necessário que seja delimitado um escopo. “Nesse sentido, a ABBI trabalha no contexto de que a bioeconomia engloba toda a cadeia de valor que é orientada pelo conhecimento científico avançado e a busca por inovações tecnológicas na aplicação de recursos biológicos e renováveis em processos industriais para gerar atividade econômica circular e benefício social e ambiental coletivo.” destaca Thiago Falda.

O que o Brasil vem fazendo para impulsionar a bioeconomia no mercado interno

Além da modernização de marcos regulatórios como os de biossegurança, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) vem atuando no desenvolvimento da bioeconomia por meio de diversas ações, com destaque para a iniciativa “Cadeias Produtivas da Bioeconomia MCTI”, que visa fortalecer cadeias produtivas baseadas na biodiversidade por meio do desenvolvimento científico e tecnológico, e o projeto “Oportunidades e Desafios da Bioeconomia – ODBio”, que visa sistematizar a bioeconomia brasileira para as bases da construção de uma Política Nacional de Bioeconomia.

Da mesma forma, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), lançou, em 2020, o Programa Nacional de Bioinsumos com o objetivo de ampliar e fortalecer a utilização de bioinsumos no país que propõem, entre outros pontos, a viabilização de investimentos em inovação e o desenvolvimento de cadeias produtivas regionais, fomento à pesquisa, estímulo à produção sustentável e redução de custos para produção e utilização de bioinsumos. Além disso, destaca-se a implementação, em 2020, da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), que tem como principal objetivo contribuir para o atendimento aos compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris, por meio da introdução de mecanismos de mercado que reconhece a capacidade de cada biocombustível na redução de emissões de carbono.

Considerando o papel fundamental das startups no desenvolvimento da bioeconomia, foi aprovado recentemente pelo Senado Federal, o Marco Legal das Startups que permitirá o estabelecimento de um ambiente regulatório facilitado para o desenvolvimento das atividades de empresas inovadoras no país.

Falando sobre o futuro

Um estudo recente divulgado pela McKinsey prevê que 60% dos insumos físicos para a economia mundial poderiam ser produzidos biologicamente, com potencial de gerar globalmente, nos próximos 10 a 20 anos, cerca de US$2 trilhões a US$4 trilhões de impacto econômico anual direto. No Brasil, a ABBI estima que a biotecnologia industrial – um dos segmentos da bioeconomia – pode agregar ao Brasil, nas próximas duas décadas, aproximadamente US$53 bilhões anuais à economia e mais de duzentos mil novos postos de trabalho qualificados se fossem investidos aproximadamente US$132 bilhões ao longo dos próximos 20 anos. Esses números poderão ser multiplicados com a introdução de mecanismos de mercado para comercialização de créditos de carbono, que poderão ser gerados com base nas emissões evitadas pela adoção de produtos de base biológica e renovável.

A necessidade imediata de uma transição global para uma economia de baixo carbono para mitigar os efeitos das mudanças climáticas já é uma realidade. O ganho da sustentabilidade aliado ao potencial econômico que a bioeconomia traz tem acionado países do mundo inteiro para incluir o tema no centro de suas estratégias de desenvolvimento e crescimento econômico. Os compromissos assumidos pelos países no âmbito do Acordo de Paris vêm sendo refletidos na definição de metas pelo setor produtivo no caminho da neutralidade de emissões.

Assim, para Thiago Falda, Presidente da ABBI, a bioeconomia oferece caminhos viáveis e que contribuem significativamente no processo de transição para uma economia de baixo carbono e coloca o Brasil, com as políticas públicas adequadas, num patamar de protagonismo, convertendo suas vantagens comparativas em vantagens competitivas.

Sobre Thiago Falda:

Atualmente é presidente da ABBI – Associação Brasileira de Bioinovação, é formado em Biologia pela UEL com Doutorado em Genética e Melhoramento de Plantas pela ESALQ/USP. Thiago tem mais de 15 anos de experiência na área de biotecnologia, com destaque para temas relacionados à Biossegurança de OGMs, Propriedade Intelectual e Biodiversidade.

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