abril 28, 2021

A eficiência energética como estratégia de desenvolvimento

A eficiência energética como estratégia de desenvolvimento

Em entrevista exclusiva, conversamos com Thales Terrola e Lopes, especialista convidado da newsletter de Abril/2021 do NRGhub – 1º Energy Hub do Brasil, para falar sobre a importância da eficiência energética como estratégia de desenvolvimento econômico; sobre a Era da Conectividade e seu o impacto para o setor de energia e cases de sucesso e inovação quando o tema é “eficiência energética”.

Conceituando a eficiência energética nos tempos modernos

A definição clássica da eficiência energética consiste na relação entre a quantidade de energia empregada em uma atividade e aquela disponibilizada para sua realização. Esta definição física da eficiência energética sempre será válida, mas nos tempos modernos a eficiência energética também se apropriou de conceitos das engenharias, economia e administração, aplicando-os aos sistemas energéticos.

Assim, torna-se difícil apresentar uma conceituação única nos dias de hoje para a eficiência energética, pois ela pode variar em função dos conceitos considerados na sua definição. Particularmente, para Thales Lopes, especialista convidado pelo NRGHub, a conceituação da eficiência energética em um espectro mais amplo, poderia ser avaliada como Gestão Energética. “Na gestão energética não se trabalha o conceito de eficiência energética de modo pontual, mas sim, através de um processo que leva uma organização pública ou privada a buscar continuamente a redução de seu consumo de energia, o aumento da eficiência energética de seus processos e o mais adequado uso da energia necessária para viabilizar as suas atividades.” acrescenta, Thales.

Uma correta gestão energética em uma organização ocasionará redução dos custos de produção, aumento da segurança energética, e, indiretamente, a redução das emissões de gases do efeito estufa. Com os recursos hoje disponíveis, não devemos nos ater a ações pontuais de eficiência energética, que posteriormente venham ser abandonadas, mas sim a um processo contínuo de busca pela eficiência, e neste contexto, o conceito de gestão energética se enquadra adequadamente.

A eficiência energética tem uma importãncia crescente na vida das pessoas e com impactos que podem ser hoje facilmente perceptíveis. À medida que enfrentamos o esgotamento dos recursos naturais, e a consequente elevação dos preços dos insumos energéticos, a adoção de práticas de eficiência energética passam a ter impacto direto no poder financeiro das pessoas, principalmente em tempos de crise econômica, como vivemos atualmente. Paralelamente aos benefícios econômicos advindos das ações de eficiência energética, o meio ambiente também agradece, com menor utilização dos recursos naturais e emissão de gases e resíduos poluentes, contribuindo assim para a melhoria da qualidade de vida da sociedade.

A eficiência energética como estratégia de desenvolvimento

Uma das estratégias adotadas pelos países desenvolvidos para impulsionar o crescimento econômico é investir em tecnologias e práticas mais eficientes. Um exemplo claro de que a eficiência energética deve ser tratada como instrumento de apoio a retomada econômica está no Plano de recuperação econômica para os EUA apresentado pelo Presidente Biden, no qual a transição para um parque de geração renovável e a eficiência energética são pontos importantes em sua estratégia de recuperação.

Em períodos como o que atravessamos hoje, onde os preços dos insumos energéticos sofrem pressão pela sua elevação, como exemplo o petróleo, o investimento em eficiência energética mostra-se ainda mais viável economicamente, sendo a principal estratégia a ser adotada por organizações públicas e privadas para a redução das despesas com os insumos energéticos. Estes recursos financeiros não gastos com recursos energéticos podem ser direcionados para outros setores ou atividades, contribuindo para a manutenção da atividade econômica da organização. O investimento em eficiência energética por empresas e municípios, neste momento de crise acentuada e elevação dos preços dos insumos energéticos, resultará em menores despesas com energia, seja petróleo, gás ou eletricidade, pagando-se o investimento em um horizonte de curto a médio prazo.

O assunto eficiência energética já permeia as organizações públicas e privadas brasileiras a algumas décadas, principalmente as maiores. Contudo a implementação de ações concretas não alcança a todas as organizações, havendo ainda um elevado potencial para eficientização da carga. Thales comenta que este cenário tende a se alterar cada vez mais nos próximos anos, com mais organizações implantando ações de eficiência energética, impulsionadas, principalmente, pela crescente elevação dos preços da energia. “A partir do momento que o insumo energia tiver um peso cada vez mais significativo nos custos das organizações públicas e privadas, a tendência é que a eficiência energética se torne elemento constante em seus planejamentos estratégicos.” destaca Thales Lopes.

A Era da Conectividade e a eficiência energética

A Era da Conectividade abre um novo contexto para as ações de eficiência energética em toda a sociedade. Com a crescente aplicação das tecnologias de informação e comunicação nas organizações, e a consequente intensificação da digitalização dos seus dados, volumes crescentes de dados passam a ser disponibilizados, permitindo a implementação de análises avançadas destes dados para tomada de decisão sob vários aspectos, onde a eficiência energética deve ser um deles.

A transformação digital tem potencial para alterar profundamente as ações de eficiência energética, principalmente em ambientes com processos produtivos, uma vez que possibilitam agora maior monitoramento, controle em tempo real, otimização e análises para uma tomada de decisão que preze pelo aumento da eficiência energética do processo envolvido. “Como exemplo dos benefícios da digitalização podemos pensar em um ambiente industrial, na qual uma série de sensores aquisitam os dados dos equipamentos\processos que monitoram, sendo estes dados transmitidos por uma rede de comunicação, por exemplo cabos de fibra ótica, para alimentar bancos de dados e sistemas computacionais. Softwares construídos utilizando técnicas de Inteligência Artificial e instalados nos sistemas computacionais realizam a análise remota dos dados, prezando, por exemplo, pela redução de consumo de energia, e assim definem o melhor ponto de operação para os equipamentos da planta, atuando automaticamente ou por intervenção humana nos mesmos.” exemplifica o especialista e engenheiro do PROCEL.

Thales destaca que “nem tudo serão flores” na relação entre a digitalização e a eficiência energética, pois a prevalência de cada vez mais dispositivos e servidores para armazenar e processar os dados produzidos pode resultar em grandes elevações no uso de energia por estes equipamentos, minimizando assim os benefícios advindos da eficiência energética.

Importante ressaltar que no caso brasileiro, o caminho da digitalização e da sua associação com a eficiência energética ainda está em estágios iniciais, com um longo caminho a ser percorrido, onde um grande desafio é viabilizar a incorporação pelas organizações e sociedade como um todo, de inovações que tenham como objetivo o aumento da eficiência energética.

A inovação como vetor de desenvolvimento da eficiência energética no Brasil

Uma das formas de fomentar a inovação está relacionada ao incentivo dado por órgãos de fomento a startups e empresas de pequeno porte de base tecnológica, com inovações relevantes em eficiência energética. Estas empresas, em geral, possuem boas soluções, com aplicação nos mais distintos setores, mas carecem de recursos financeiros, de suporte técnico e de negócios para alavancarem suas soluções e torná-las inovações preparadas para inserção no mercado.

Poucas são as startups e pequenas empresas de base tecnológica que sobrevivem ao “funil da inovação”, porém estas que se sobressaem, sempre apresentam inovações de alto impacto à sociedade, e em algumas situações, inovações disruptivas, capazes de alterar toda uma estrutura de mercado.

O apoio ao desenvolvimento das inovações, mostra-se um investimento assertivo, pois os recursos financeiros e/ou técnicos são alocados em soluções com considerável maturidade tecnológica, muitas vezes já avaliadas em ambiente real e com elevado potencial de mercado.

Thales comenta que no setor de eficiência energética aguardamos o surgimento de uma inovação disruptiva, como o Uber ou o Airbnb. Porém, para torná-la uma inovação real e não simplesmente um protótipo, o caminho é longo e árduo, e sem o apoio financeiro e/ou técnico das organizações que possuem estes recursos, a solução pode nunca se tornar uma inovação para o mercado de eficiência energética.

Esta estratégia de apoio às startups já se tornou prática em algumas concessionárias de eletricidade, que têm realizado chamadas públicas direcionadas a startups com inovações no segmento de eficiência energética, utilizando os recursos dos Programas de P&D ou PEE da Aneel. Outra importante iniciativa neste sentido está sendo executada pelo Procel em parceria com o Senai-RJ, através do Programa Lab Procel, desenvolvendo um programa de aceleração tecnológica para startups e pequenas empresas de base tecnológica com inovações em eficiência energética com elevada maturidade tecnológica e impactos relevantes para a sociedade.

Atualmente, estas ações de apoio ao desenvolvimento das inovações em eficiência energética estão dispersas e partem do interesse individual de cada organização. “Se o país caminhasse para um programa estruturado de apoio às inovações em eficiência energética, envolvendo variados agentes, desde a academia até as empresas e órgãos governamentais, com certeza aceleraríamos o nosso mercado da eficiência energética, podendo alcançar patamares de eficiência energética comparáveis aos de países desenvolvidos em um horizonte mais curto.” ressalta Thales.

Sobre Thales Terrola e Lopes:

Engenheiro Eletricista da Eletrobras \ Procel e Professor Adjunto II do curso de Engenharia Elétrica da Universidade Federal Fluminense (UFF). Possui graduação, mestrado e doutorado em Engenharia Elétrica, com ênfase em Sistemas de Energia Elétrica. Já atuou em diversas áreas da Eletrobras, como planejamento da expansão, gestão e execução de projetos de P&D, Programa Luz para Todos e atualmente atua como engenheiro no Procel, executando projetos de eficiência energética na indústria, iluminação pública e projetos de inovação tecnológica. Anterior a UFF, foi professor dos cursos de Engenharia Elétrica da UFRJ, CEFET-RJ e USU. Em conjunto a atividade docente na UFF, atua também como pesquisador e na orientação de projetos de pesquisa em nível de graduação e Mestrado.