junho 15, 2020

Entrevista – Rafael González, diretor presidente CIBiogás

by nrghub in Especialista

Na edição deste mês convidamos para uma entrevista exclusiva, o Diretor Presidente do CIBiogás e Engenheiro Ambiental, Rafael González. Com mais de 10 anos de experiência em captação e gestão de projetos na área de energias renováveis, Rafael compartilha sua visão sobre o cenário atual do setor de biogás e aponta oportunidades de crescimento deste setor no Brasil.

NRGHUB: Estamos acompanhando alguns webinars sobre o mercado do Biogás no Brasil e podemos perceber que mesmo em face à crise sanitária, o mercado continua aquecido. Como você enxerga o impacto dessa crise no setor, principalmente na pós-crise? E quais são as oportunidades a serem aproveitadas nesse momento, seja pelas grandes empresas que desejam investir nessa fonte renovável, seja pelo pequeno produtor?

RG: Nós acreditamos que a bioeconomia seja uma tendência e uma forma de acelerar a economia pós-crise. A pandemia apresentou uma série de restrições sanitárias e ambientais e revelou a necessidade do país em inovar para garantir seus suprimentos, produtos e serviços.

Somado a isso temos as questões relacionadas a emissões de gases de efeito estufa, pois a sociedade passa a se preocupar cada vez mais com as condições dos setores produtivos e busca novos produtos que se adequem ao momento em que vivemos. Certamente o pós-crise altera as condições de consumo e consequentemente cria uma oportunidade ainda maior para o biogás as energias renováveis de maneira geral. Estamos falando de uma energia e combustível proveniente da transformação daquilo que é considerado resíduo. Temos as condições para consolidar o biogás no Brasil – se por um lado temos produtores rurais, agroindústria, estações de tratamentos urbanos, por outro temos investidores com a visão de valorizar seus recursos no setor de energia, precisamos então estes atores e construir as oportunidades, dando segurança tecnológica.

NRGHUB: Quais as principais tendências para o mercado do biogás? O que vem sendo aplicado no mercado internacional que poderia ser tropicalizado para o Brasil? Tanto em termos de tecnologias como em termos de modelo de negócio?

RG: As tendências de mercado estão relacionadas com as oportunidades de negócios e seus modelos. O que se torna mais atrativo passa a ter um valor maior na cadeira produtiva, da mesma maneira como ocorre em outros setores. Para o biogás temos uma grande quantidade de usinas de geração de energia elétrica, sendo esta uma tendência de ampliação do parque gerador.

Por outro lado, temos programas do governo federal para o Novo Mercado de Gás, que sugere uma grande oportunidade para o biometano – biogás refinado e transformado em combustível. As grandes empresas, de veículos pesados, têm investido significativamente no desenvolvimento de equipamentos movidos a gás, considerando o biometano, desta forma, entendo que o biometano é uma tendência importante e deve ganhar espaço cada vez maior e mais competitivo na matriz dos biocombustíveis.

NRGHUB: Uma publicação recente da Agência Internacional de Energia apresentou que uma das estratégias de retomada da economia por países desenvolvidos foi o investimento em fontes renováveis e eficiência energética. Você acredita que isso poderia se aplicar ao Brasil? E como? E enxerga o biogás fazendo parte dessa mudança?

Acredito que essa é uma estratégia sem retorno. As energias renováveis vieram para ficar e complementar o mercado das energias tradicionais. Em um país como o Brasil, não podemos falar sobre uma única fonte de energia, a diversificação é a chave do sucesso para reduzir os investimentos em infraestrutura e tornar a energia competitiva e mais acessível para os consumidores.  O biogás é parte desse movimento e é intensificado ao passo que se percebe a valorização ambiental e a energia segura proveniente do tratamento dos resíduos.

Estamos falando da bioeconomia e da forma como as empresas terão que lidar com os protocolos e exigências do mercado para redução de gases de efeito estufa. Além disso, o biogás cria uma cadeia produtiva que se nutre da economia local, agregando valor econômico para uma região onde se implanta uma usina de biogás.

NRGHUB: Por fim, mesmo sabendo que ainda é um mercado incipiente, o que falta no mercado brasileiro para impulsionar a cadeia do biogás?

RG: Hoje o biogás aproveitado no país representa apenas 4% do seu potencial. O mercado pode ser ainda muito maior se soubermos aproveitar o momento. Para que a cadeia possa se desenvolver é necessário um maior conhecimento dos benefícios do biogás, a atualização das políticas públicas que facilitem a modelagem de negócios e a busca pelo aproveitamento econômico de outros produtos que uma planta de biogás possui, por exemplo o Digestato (fertilizante rico em nitrogênio, fósforo e potássio) e do CO2.

A junção de receitas provenientes da energia e de outros produtos de uma planta de biogás podem melhorar a viabilidade dos projetos e garantir maiores investimentos, aumentando a capacidade de produção e consequentemente a consolidação desse energético.